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Maria de Fátima Almeida é Mediadora Judicial e Extrajudicial

Diante da extensão, gravidade e velocidade com que se espalhou a crise sanitária estamos sendo desafiados a rever conceitos, pré-conceitos e a adotar um pensamento coletivo. Vamos assumindo a certeza de que coexistíamos e que conviver é uma experiência para a qual estamos bastante despreparados.

Estar no mesmo espaço social não significa conviver ou trocar experiências e estabelecer conexão.

Podemos considerar que a convivência tem como pressuposto básico o diálogo e que este, embora possa se iniciar com a apresentação dos diversos pontos de vista, somente será positivo se garantida à reciprocidade, o respeito, a compreensão dos diferentes olhares e uma escuta empática.

Convidada para falar sobre o impacto causado nas famílias pelo regime remoto de ensino-aprendizagem me surgiram vários questionamentos e uma certeza, neste processo disruptivo: minha fala seria um convite à reflexão baseado na minha experiência como aprendiz dos métodos de resolução de conflitos.

Para uma breve análise, sobre os principais desafios vivenciados pelas famílias, considerei a experiência em Mediação, e relatos trazidos por alunos, nos cursos que ministro, sempre atenta à confidencialidade e observando que os pontos destacados, embora multifatoriais, se assemelhavam.

De início constatei que apesar de todos se sentirem vulneráveis, o medo de contaminação, é bem maior quando se referem ao outro, em geral, filhos e pais idosos, em um paradigma de cuidado. O processo de adaptação a esta realidade vem desafiando além da alteração dos hábitos cotidianos, habilidades relacionais e de convivência, administração de questões econômicas; conciliação do trabalho remoto com a organização e divisão das tarefas domésticas, o respeito ao espaço e momento do outro e, para muitas famílias, o auxilio aos filhos no processo ensino aprendizagem e cuidado com idosos.

Estamos todos experimentando o verdadeiro significado de palavras como tolerância, resiliência e ressignificação. Compreender que estamos em permanente transformação, reelaborar modelos preconcebidos e nos disponibilizarmos para o outro não é tarefa fácil e desafia quebra de paradigmas.

Alguns sentimentos ficam mais evidentes e é necessário se questionar: como estou me sentindo? A auto-observação, o autocuidado, a autoempatia, o acesso aos próprios sentimentos e reais necessidades possibilita a auto-organização, a autorresponsabilização e o reconhecimento de que a causa dos nossos sentimentos não está fora de nós, mas deriva de alguma necessidade que temos e que não esta sendo atendida.

Mães e pais necessitam atender múltiplas atividades, tanto com relação à demanda profissional, mantendo um bom desempenho em suas tarefas de trabalho que poderão envolver reuniões por vídeo, e-mails e mensagens, quanto a estarem atentos à rotina dos afazeres da casa, refeições, auxílio nas tarefas escolares, disponibilidade para atividades com os filhos, enfim, buscar uma forma para gerir esta nova realidade.

Estreitar vínculos e estabelecer conexão é uma customização diária, inexistindo uma fórmula pronta. Cada família vai necessitar criar seu próprio modelo, seu espaço de interação positiva, oportunizando comunicação assertiva, diálogo e cooperação para gerar reconhecimento e confiança recíproca.

Com relação à cooperação no acompanhamento das tarefas escolares, a experiência tem mostrado que a corresponsabilização possui o potencial de transformar divergências em diálogos construtivos. Sabemos que tanto os pais e alunos quanto professores e escolas não estavam preparados para este modelo de ensino e que, embora as aulas à distância sejam desafiadoras para todos os envolvidos no processo, a participação da família produz impactos bastante positivos na aprendizagem.

Por outro lado, além da necessidade de um computador o aluno deverá ter acesso a internet , afastando a metodologia virtual da igualdade social, uma vez que a realidade socioeconômica de grande parte dos alunos não lhes possibilita tais recursos, em prejuízo a garantia de acesso e permanência no processo educacional.

É necessário pensar em alternativas que observem o princípio da equidade. Viver de forma coletiva é se corresponsabilizar! Daí surge o questionamento: Como podemos contribuir para gerar opções de solução mais humanas e inclusivas? Acrescente-se que o desenvolvimento emocional e social experimentado pela criança e pelo adolescente no espaço escolar não podem ser reproduzidos no espaço virtual, sendo necessário pensar em medidas que mantenham este vinculo.

“além do apoio psicológico e do acolhimento emocional, outra forma de minimizar os impactos do período da pandemia nos alunos (e até mesmo prepará-los para futuras crises) é por meio do desenvolvimento das chamadas “competências socioemocionais”, tais como a resiliência, a adaptabilidade, a confiança e a tolerância ao estresse e à frustração”. (https://static.poder360.com.br/2020/05/todos-pela-educacao.pdf)


Experiências de estimulo e facilitação dos encontros virtuais entre os alunos para que possam rever os amigos, conversar, jogar, manter-se conectados ao universo da escola, são relatadas como positivas e favoráveis ao sentimento de pertencimento. Alguns pais relatam ruídos comunicacionais quando da realização das tarefas, respostas negativas, choros e outras manifestações de resistência, condutas que são repelidas com imposição de poder.

Reflexões extraídas das lições de Marshall Rosenberg, o grande Mestre da Comunicação não violenta, tão atuais e oportunas, nos ensinam a facilitação da comunicação entre pais, filhos e demais membros da família:

  1.  “Desenvolver uma comunicação que viabilize a criação de qualidade de vínculo de modo a atender a necessidade de todos é muito diferente daquela que usamos quando adotamos formas coercitivas para resolver disputas com as crianças”.
  2.  “Há alternativas entre deixar as pessoas fazerem o que bem entendem e aplicar táticas coercitivas de punição. Alias, gostaria de dizer que as recompensas são tão coercitivas quanto os castigos. Nos dois casos estamos usando o poder sobre os outros”.
  3. “Tudo que gera culpa vergonha ou medo em mim e/ou no outro é uma forma de violência”

Atenta à proposta inicial de trazer reflexões deixo um convite ao experimento de algumas ferramentas da Mediação, que podem ser adotadas quando se deseja uma comunicação eficaz:

  • Escuta: Ouvir de corpo inteiro, de forma inclusiva admitindo que o outro traga seu ponto de vista possibilitando reflexão e mudança de nossa narrativa.
  • Linguagem: Cuidados com a linguagem verbal e não verbal
  • Perguntas: As perguntas são ferramentas potentes para a compreensão das percepções, gerando reflexão e possibilitando ideias criativas de solução.
  • Validação de sentimentos e Não Recriminação: Ouvir sem julgar estimula o compartilhamento possibilitando a conexão.
  • Acolhimento: Acolher o outro como legítimo outro.
  • Visitar o lugar do outro: Como o outro está percebendo a situação. Qual a sua visão do mundo?

O COVID-19 nos apresenta uma oportunidade de desenvolvimento de valores tais como empatia, compaixão, generosidade, gratidão, humildade, cooperação, cuidado e solidariedade.

O filósofo e educador colombiano, Bernardo Toro ao falar sobre mudança de paradigma afirma que: “Precisamos deixar de ser uma sociedade orientada pelo êxito, pelo vencer, pelo ganhar. Nosso novo paradigma precisar ser o cuidado. Saber cuidar, saber fazer transações de ganhar/ganhar e saber conversar. Não mais uma inteligência guerreira, mas sim uma inteligência solidária”.

FONTES:
ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não violenta : técnicas para aprimorar relacionamentos 
pessoais e profissionais / Marshall B. Rosenberg ; [tradução Mário Vilela]. - 
São Paulo: Ágora, 2006.

https://static.poder360.com.br/2020/05/todos-pela-educacao.pdf
BIBLIOTECA: ‘O Paradigma do Cuidado’, por Bernardo Toro

Maria de Fátima Almeida é Mediadora Judicial e Extrajudicial em procedimentos ad hoc e Câmaras Privadas. Mestranda em Sistemas de Resolução de Conflitos e Pós Graduada em Responsabilidade Civil e Direito do Consumidor. Certificada em solução pacífica de conflitos no âmbito da Administração Pública pela E.V. G e em mediação de Conflitos envolvendo Políticas Públicas pela ENAM.  Mediadora da Câmara de Mediação de Conflitos da OAB/RJ. Facilitadora de diálogos em grupos, empresas e famílias. Expositora das Oficinas de Pais certificada pelo CNJ. Palestrante, docente e supervisora em cursos de capacitação em Mediação de Conflitos. Instrutora da ESAJ/TJRJ. Subdelegada do Estado do Rio de Janeiro na CEMAJUR INTERNACIONAL. (Comunidade Internacional de especialistas em Mediação).

**Toda terça-feira o Programa DESATANDO NÓS publica um texto de um (a) convidado (a) sobre mediação de conflitos no nosso site. Acompanhe e compartilhe com amigos e familiares!