DISQUE DENÚNCIA:    99973-1177 | 2253-1177    pactocontraviolencia@niteroi.rj.gov.br

Pedro Consorte é consultor de Comunicação voltada para a Inteligência Emocional e para o Desenvolvimento Humano

Com certeza são muitos os fatores, e, para começar, quero te fazer uma pergunta:

O que você acha que faz alguém se comportar de uma forma “mimada”?

Imagine, por exemplo, se existisse uma pessoa que sempre atendesse às suas vontades e desejos. Não importa o desejo que você tivesse, essa pessoa atenderia para você. Parece um sonho? Lembre agora daquilo que acontece com as crianças que são criadas dessa forma, de uma maneira que está sempre a serviço tentando atender todos os desejos delas.

É importante ressaltar que os “desejos da criança” são entendidos aqui como coisas diferentes das “necessidades da criança“. Podemos negar atender os desejos, mas devemos sempre cuidar das necessidades. O atendimento dos nossos desejos e a sensação de que a vida gira em torno deles pode ser realmente prejudicial para nós, porque não estamos sozinhos no mundo.

A vida é cheia de atritos, conflitos, limites e possibilidades que surgem a partir dessa fricção, porém estamos cercados de uma cultura que favorece muito o olhar para a realização de nossos interesses de maneira individualizada. As tecnologias, por exemplo, são extremamente eficazes no atendimento de nossos desejos e esse processo parece acabar alimentando também uma sociedade de pessoas cada vez mais acostumadas a terem suas vontades atendidas imediatamente. Talvez você já tenha sentido uma frustração por esperar por alguns dias a resposta de alguém pelo Whatsapp. Talvez já tenha também recebido essa cobrança de resposta por alguém impaciente.

Se eu não gosto de algo, eu edito, deleto, bloqueio. É um processo que sustenta uma cultura da impaciência e do imediatismo. Provavelmente, você tem uma conta no Facebook, no Instagram ou em alguma outra rede, e sabe que, constantemente, essas plataformas estão nos estimulando a expressarmos nossas opiniões e pensamentos. É um ambiente altamente verborrágico, onde todo mundo tem muito o que dizer sobre tudo.

Mas parece também que essas plataformas não se preocupam muito com o exercício de maturação de informações ou de profundidade de reflexões. O que importa é a produção incessante de conteúdo. Um bom exemplo disso é o que acontece na página inicial do Facebook. Assim que eu entro na minha conta, ele me pergunta: “No que você está pensando, Pedro?”. Ele não me pergunta para saber realmente, ele me pergunta para que eu publique a minha opinião e, a partir disso, as interações digitais comecem a acontecer.

Uma plataforma como o Facebook, que estimula essa autoexpressão e essa exposição exacerbada e imediata, não parece cultivar o tempo de maturação das ideias que o diálogo pede. Esse ambiente parece acabar nos acostumando a nos apegarmos apenas às nossas próprias vontades, o que reverbera, inclusive, nos comportamentos que acontecem fora do espaço virtual.

Dessa forma, o comportamento praticado virtualmente acaba contaminando as relações que acontecem no mundo offline. Como o filósofo francês Jean-Marie Muller explica, quando desenvolvemos uma relação de poder sobre as coisas em um ambiente, isso desencadeia a vontade de exercer esse mesmo poder também em outros ambientes. E os recursos tecnológicos são tão eficazes na realização dos nossos desejos que acabamos esperando que essa mesma performance venha das pessoas.

Neste caso, transbordamos o poder que exercemos nas redes sociais para fora delas, para o mundo presencial, querendo exercer poder sobre as coisas e também sobre as pessoas. Como exemplo de situações nas quais questões do mundo on line transbordam de forma trágica para o offline, aqui vai uma história bizarra:

Em dezembro de 2016, o restaurante Comet Ping Pong, em Washington, foi invadido por um homem armado com um fuzil AR-15 que, após ler uma notícia falsa na internet, decidiu invadi-lo, atacando os funcionários. Ele havia lido sobre o suposto envolvimento de Hillary Clinton, candidata à presidência dos Estados Unidos, com um sistema de exploração sexual infantil que estaria acontecendo dentro do mesmo restaurante.

Segundo o Dominic Barter, pesquisador inglês de Comunicação Não-Violenta e de Círculos Restaurativos, a escuta, hoje em dia, é mais importante do que nunca, pois, o que a internet tem providenciado é, principalmente, um espaço de fala e não de escuta. Isso evidencia um desequilíbrio visível entre o quanto as pessoas estão dispostas a expressar e o quão pouco se oferecem para escutar. Ou seja, muita coisa é dita e pouca coisa é ouvida.

Este cenário se mostra bastante árido para a criação de diálogos significativos, porque diálogos não acontecem quando cada pessoa tenta compartilhar suas ideias já conhecidas, mas sim quando criamos algo novo juntos. Muitas vezes, os conflitos surgem quando as pessoas expressam suas ideias e são questionadas, pois estamos acostumados a nos misturarmos com nossas próprias ideias e, ao tê-las questionadas, sentimos como se estivéssemos sob ataque.

O que poderia servir como um discurso agregador, que defende que a internet conecta todos em uma grande rede global de usuários, acaba se mostrando como um sistema que reúne pessoas, de acordo com os seus gostos e perfis. Separados em pequenos grupos com interesses e valores semelhantes, alimentamos um processo o que o psicólogo americano Joshua Greene chama de “moralização da internet“.

Esses seriam pequenos grupos que potencializam tanto ações construtivas quanto ações destrutivas, pois agora nós encontramos parceiros para tudo na internet: tanto para o melhor quanto para o pior. Porém, mesmo dentro destes grupos menores, não há garantia de compartilhamento, porque, para haver compartilhamento, é necessário construir o que se chama de campo comum. Para fazer isso acontecer, é preciso mais do que uma convergência de interesses semelhantes, é indispensável compartilharmos também as nossas próprias diferenças.

Esse mundo digital, porém, opera, principalmente, de acordo com o pensamento convergente, o que acaba nos estimulando a também operarmos nessa lógica. Isso é problemático, porque tende a desabilitar as nossas aptidões para lidar com pensamentos divergentes, que são fundamentais para o processo de elaboração de pensamentos críticos e reflexivos.

Ao mesmo tempo, é importante lembrar que os usuários e plataformas digitais não são os únicos envolvidos nessa equação. Estão invisíveis e intensamente presentes nesse cenário, a cultura da meritocracia, da produtividade econômica e da justiça baseada em valores morais.

Os efeitos colaterais disso tudo se concretizam como uma impossibilidade de convívio e no nosso isolamento. A ação de nos isolarmos promove a perda da capacidade para lidarmos com a diversidade, o que se torna um risco à nossa própria espécie. Esse é um risco, pois a cooperação, cujo processo envolve lidar com diferenças, é um traço evolutivo necessário para aumentar as chances de sobrevivermos.

Donna Haraway, uma professora americana da área da ciência e tecnologia propõe que nos relacionemos a partir de relações de co-criação, o que ela chama de relações simpoiéticas. Ela propõe isso em oposição às relações de autocriação (relações autopoiéticas), pois considera que estas últimas oferecem uma linha de raciocínio perfeita para alimentar a cultura do individualismo, que serve como base para o capitalismo e para o neoliberalismo.

Nós humanos temos necessidade de estabelecermos conexões sociais, porém, a forma com a qual a cultura de consumo lida com essa necessidade parece produzir ainda mais solidão. Mas essa solidão se trata de um estado cognitivo, que não depende de estarmos ou não na companhia de alguém. Ela seria um dos danos da cultura da competição e do individualismo. O existir passa a acontecer no isolamento e produz consequências preocupantes: prejudica a atividade de pensar e refletir, diminui a força de vontade, a perseverança, a capacidade de ler sinais e a de exercer habilidades sociais. Isso interfere na regulação das nossas emoções e pode nos aprisionar em comportamentos autodestrutivos, que acabam por reforçar o próprio isolamento e a rejeição.

De acordo com uma pesquisa da Edison Research (2019), 46% de todas as pessoas que já usaram o Facebook diminuíram ou pararam de usar a rede social, principalmente por causa da alta presença de comentários hostis, atmosfera tóxica, interações negativas, conteúdos políticos estressantes e questões relacionadas à privacidade. De todas estas pessoas que estão usando menos o Facebook, 34% do público entre 13 e 34 anos diminuiu essa utilização porque prefere usar outras plataformas. Mas, para o público de 35 a 54 anos, 19% identifica a negatividade como o motivo principal de diminuir o uso.

Para o psicanalista brasileiro Christian Dunker, nós vivemos em um momento no qual dois afetos fundamentais estão emergindo latentemente: o ódio e a vergonha. O ódio seria um elemento fundamental para a produção de desconexão e a separação entre as pessoas, surgindo em uma nova onda generalizada, sem forma e sem causa. Porém esse ódio também chegaria até a perder sua eficácia na função de separar as pessoas, porque seria, na verdade, uma expressão de desespero e um grito que pede por, no fundo, por conexão. Por isso, é importante investigarmos de onde vem nossa impaciência, de onde vem nosso imediatismo e nossa intolerância.

Essas são questões apenas individuais ou temos um cenário que nos estimula a nos sentirmos assim?

Enquanto desconhecermos os processos que acontecem dentro de nós, estaremos mais frágeis, manipuláveis, distraídos e facilmente sequestráveis tanto pelas nossas próprias reatividades, quanto por aqueles que dizem ter a solução para as nossas necessidades.

A Comunicação Não-Violenta, por exemplo, nos convida a reconhecer esses estados de impaciência, raiva, frustração, tristeza, ansiedade, solidão e intolerância como indicadores de que algo precisa ser cuidado. Sentimentos assim são considerados termômetros de nós mesmos e esta não se trata de uma questão individual, é algo em larga escala. Precisamos de estratégias que sejam criadas coletivamente e de caminhos que sejam realmente eficazes, tanto no atendimento de nossas necessidades individuais quanto coletivas.

Essa consciência é importante para não ficarmos reféns desses estados emocionais e psicológicos que temos enfrentado, e vermos onde estamos nos enfiando como sociedade.

Pedro Consorte é Facilitador de grupos há mais de 15 anos, trabalhou em 15 países (América do Sul, América do Norte, Europa, Ásia e África). Tem Foundation Course em Música (CCCU, Inglaterra), Graduação em Comunicação das Artes do Corpo (PUCSP), Pós-Graduação em Pedagogia da Cooperação e Metodologias Colaborativas (UNIP), Mestrado em Comunicação e Semiótica (PUCSP). É ex-performer do espetáculo internacional STOMP (Londres), co-fundador do projeto Música do Círculo (música e conexão humana), co-fundador do Festival da Empatia (online), fundador do coletivo Colabora Corona, é professor convidado na Pós-Graduação em Pedagogia da Cooperação, com treinamento internacional pelo CNVC (Center for Nonviolent Communication), e é voluntário no CVV (Centro de Valorização da Vida) que oferece apoio emocional no Brasil inteiro.

**Toda terça-feira publicamos um texto de um (a) convidado (a) sobre mediação de conflitos.