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Joana Tânia Pereira dos Anjos Raphael é Jornalista, Professora, Mediadora de Conflitos, Escritora e Ativista social

A base da pirâmide está se movendo e rejeita as soluções de sempre sendo aplicadas aos velhos problemas. Afinal, a Sociedade, em seu processo acelerado de mudanças sociais, tecnológicas, relacionais, religiosas, exige novas atitudes para que a vida seja digna para todos os seres humanos, o que não impede o surgimento de ondas conflituais, requerendo, sabedoria e outras habilidades.

O espaço escolar é espaço de vida, onde pessoas circulam e vivenciam dificuldades, entre estas, aquelas motivadas por racismo e capacitismo. O agravante, porém, é que muitas situações conflitivas provocam traumas “ad aeternum” nos envolvidos por falta de profissionais que abordem e dialoguem sobre o assunto com conhecimento e empatia.

Até bem pouco tempo, as pessoas com deficiências, PCDs ficavam reclusas em casa. As famílias pouco comentavam sobre elas e, preferencialmente, escondiam de vizinhos e parentes. Eram pessoas sem direito à vida. Recordo-me um fato da infância quando só soubemos que uma amiga de brincadeiras tinha um irmão com deficiência no dia do óbito dele. Nunca ouvíramos falar de sua existência. As pessoas diferentes das consideradas normais não tinham voz nem vez. Seus destinos, na maioria das vezes, eram remédios para dopar, asilos e até mesmo manicômios.

A Constituição Cidadã de 1988 foi o marco para que as pessoas com deficiência passassem a ter voz e tivessem seus direitos reconhecidos. O lema ‘Nada sobre nós sem nós’ expressa a importância da questão em si. Capacitismo, conceito ainda pouco conhecido no Brasil, é o preconceito e a discriminação contra as pessoas com deficiência, em razão da sua deficiência. Ora, pessoas em minoria social são afetadas pelo preconceito logo que colocam os pés fora de casa, pois a sociedade logou um padrão comportamental para todos.

Uma pessoa com deficiência encontra obstruções quando quer acessar transporte, escola, emprego, espaço de lazer e outros, pois faltam rampas, cadeiras apropriadas, calçadas sem buracos, intérpretes de libras, piso tátil, textos e pictogramas em alto relevo, mapa tátil. A ausência de acessibilidade revela uma face do capacitismo existente no meio de nós, mas há outras formas de revelar esse preconceito quando se utiliza expressões negativas ao se referir a pessoas mais lentas.

Outra forma de capacitismo vem disfarçada de elogio, como “você é tão bonito, nem parece deficiente” ou “quando eu penso em reclamar, vejo sua situação”. As expressões denotam que há um estereótipo de que os deficientes são incapazes,
inferiores aos outros e não-merecedores de sucesso.

Toda pessoa é capaz de se superar e desenvolver sua autonomia, não sendo necessário moldar-se a conceitos criados por terceiros. Governos e sociedade precisam criar acessibilidade para todos de tal modo que PCDs não se destaquem por exceção, como exemplos de superação etc. PCDs são pessoas e é preciso junto a elas repensar a forma como a vida social se organiza.

O racismo constitui-se na discriminação e no prejulgamento, com eixo em percepções biossociais entre os povos. Sendo propagado, na maior parte das vezes, em forma de entraves sociais, práticas obstrutivas, crenças excludentes, normatizadas através de sistemas políticos que acreditam que diferentes raças devem ser classificadas como implicitamente superior ou inferior, baseando-se em habilidades, qualidades e ou características hereditárias, levando a crer que membros de raças distintas deveriam ser tratados de formas dessemelhantes.

Para compreensão das origens do racismo, podemos inseri-lo no contexto da  construção de um prédio. Para construir a casa, faz-se necessário o uso de tijolos, pedras, água, areia, cimento e outros. O cimento da construção é o racismo na
formação da sociedade brasileira. Houve contribuições várias, mas foi o racismo que ficou colado ao alicerce e às paredes e da qual o prédio, leia-se sociedade dominante, não quer retirar porque lhe é conveniente, não se entende sem ele e ainda nega sua existência. O racismo sustenta a estrutura social, política e econômica da sociedade brasileira.

O Racismo estrutural, consequência da escravização dos povos originários de países africanos em solo brasileiro, é a naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que impregnam a vida cotidiana na “terra brasilis”, resultando em segregação ou preconceito racial. Um processo rançoso que atinge diuturnamente, há séculos, a população negra, no qual se incluem os eufemismos para referir-se à cor da pele, usando as expressões “moreno”, “pessoa de cor”, “chocolate”, “marrom bombom” e partindo daí para as expressões ofensivas, incorporadas ao vernáculo nacional: “coisa de preto”, “tinha que ser preto”, “macaco”, “lista negra”, “amanhã é dia de branco”, “cabelo ruim”.

Pensamentos, atitudes e ações explícitos e/ou implícitos dentro das instituições públicas e privadas alimentam a cadeia do racismo estrutural e materializam-se na ausência de políticas públicas que possam promover melhores condições de vida a
essa população.

Tanto o capacitismo e o racismo estrutural são causas constantes de discussões e brigas no espaço escolar e a turma do “deixa pra lá” entra em ação, minimizando o momento, mas não colaborando para a formação de pessoas não-preconceituosas.

Normalmente, a vítima do racismo recebe conselhos para não ligar, para ficar quieto. A vítima é silenciada e o ofensor segue para fazer novas vítimas, não sendo responsabilizado e muito menos refletindo sobre suas atitudes. Partindo da vivência em diversas escolas públicas e privadas, através do Projeto Escolhas do Bem ao longo de uma década, é possível afirmar que a Mediação em espaços escolares contribui na redução de conflitos.

Segundo Salles (2007), “a mediação é um procedimento consensual de solução de conflitos por meio do qual uma terceira pessoa imparcial – escolhida ou aceita pelas partes – age no sentido de encorajar e facilitar a resolução de uma divergência. As pessoas envolvidas nesse conflito são as responsáveis pela decisão que melhor as satisfaça”. (p.23).

Importante ressaltar que encorajar e facilitar integram o processo dialogal para as partes compreenderem suas responsabilidades, pois conflito, seja ele qual for, tem origem nas diferenças de interesses, sem um entendimento de certo ou errado e sim nas razões que são defendidas frente a outras. O que falei, por que falei, o que eu ouvi, como interpretei, como me senti, deixando espaço para expressão das emoções e do processo histórico que levou à situação.

Um educador que não conheça de capacitismo e racismo terá dificuldades em interagir numa mediação com esse viés de modo a possibilitar redução de danos psicológicos à vítima, crescimento em maturidade para o ofensor e restauração de vínculos entre as partes.

Nos conflitos em espaço escolar, um dos principais objetivos é que as partes saiam do encontro dispostas a uma melhor convivência, porque o diálogo instaura a confiança entre os seres humanos, rompe silêncios e implica um pensar crítico sobre si, a coletividade e a realidade conflituosa (FREIRE, 2005).

Defendo a necessidade de projetos e parceiros com perfil mediador nas escolas privadas e públicas, com técnicas bem definidas para colaborarem com as equipes pedagógicas, principalmente neste tempo pós-pandemia, e o advento das mais
variadas ações de combate ao racismo e ao capacitismo em que toda forma de preconceito tem sido questionada e boletins de ocorrência têm sido abertos para responsabilizar e coibir o racismo estrutural. O sofrimento existiu e está bem vivo, mas o modo de reagir a ele tem sido muito diferente e isso obriga uma nova postura socioeducacional.

Não ignoremos que o problema social brasileiro que influencia atitudes de intolerância na escola é muito amplo e a mediação como prática restaurativa pode se tornar uma estratégia nesse cenário e essa , quando utilizada, permite ao autor do p reconceito compreensão das razões e consequências de suas atitudes, além de possibilitar reparação dos possíveis danos num processo de reflexão e responsabilização o qual ele próprio ajuda a construir”.

Noutro eixo norteador do Projeto Escolhas do Bem, está o desenvolvimento das habilidades sociais básicas, apresentadas por Manuel Segura. Através de dramatizações, vídeos e outros, os estudantes são estimulados a ouvir atentamente,
pedir um favor, pedir desculpas, receber uma reclamação, negociar, dar um elogio, colaborar em atividades, respirar pausadamente. É um processo de educação emocional através de orientações elementares baseadas na psicologia e no bom senso em que aprendem a enfrentar a raiva, angústia, medo, frustração e ansiedade. Esses sentimentos, muitas vezes incontrolados, não carecem de ajuda profissional de psicólogos ou psiquiatras, mas podem ser atenuados com técnicas desestressantes, facilitando relacionamentos mais corretos, sem passividade ou agressividade, com espaço para autoconhecimento e liberdade para si e para o outro. As vendas nos olhos que atrapalham a visão são retiradas ao perceber que o outro tem opiniões diferentes, mas isso não os faz inimigos.

Acrescentando ao processo de mediação de conflitos no espaço escolar uma pitada generosa da Pedagogia do Afeto, referenciada no educador Paulo Freire, mas já intensamente vivenciada por Jesus e relatada pelos autores Mateus, Marcos, Lucas e João. Pedagogia essa também citada pelo apóstolo Paulo ao escrever uma carta aos seus amigos residentes na cidade de Corinto: “Quem ama não fica alegre quando alguém faz uma coisa errada, mas se alegra quando alguém faz o que é certo. Quem ama nunca desiste, porém suporta tudo com fé, esperança e paciência”, compreendemos o acolhimento amoroso expresso na capacidade de ouvir e dar voz de maneira imparcial, como açúcar para transformar o gosto amargo da ofensa e quebrar barreiras intransponíveis. Sim, acredito na força do amor para favorecer a educação na construção de educandos equilibrados no que tange ao afeto, ao conhecimento, à emoção e à espiritualidade.

Até o momento, ações colaborativas têm sido realizadas através de parcerias e voluntários, mas a criação de um programa municipal de mediação muito contribuirá para o alcance de uma educação pública, de qualidade, gratuita, laica, humanizada,
acessível a todos, socialmente referenciada, antirracista e anticapacitista.

Joana Tânia Pereira dos Anjos Raphael é Jornalista e Relações Públicas graduada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, e pós-graduada em Orientação Educacional e Pedagógica pela Universidade Cândido Mendes – UCAM. Especialista em Educação e Relações Étnico-raciais (UFF) e em Políticas Públicas de Qualificação Profissional, Emprego e Renda para Jovens e Adultos Trabalhadores (UERJ). Professora convidada e pesquisadora no Programa Desenvolvimento e Educação – Theotonio dos Santos (IFHT-UERJ). Mediadora em Conflitos Comunitários e Escolares (NUPEMEC – Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro). Co-fundadora e assessora da Educafro (Educação para afrodescendentes e carentes), Coordenadora do Projeto Escolhas do Bem (Orientação Vocacional e Profissional para adolescentes e jovens). Capelã
Escolar, ativista social, escritora e palestrante.

**Às terças-feiras publicamos um texto de um (a) convidado (a) sobre mediação de conflitos.